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Contos Galácticos

Contos, artigos e traduções interessantes do Informátivo Galácito, o Fanzine exclusivo do Projeto Traduções para seus integrantes, liberados para apreciação do público em geral!

Atlan e Árcon – 50 anos (PR 50-99)

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Como uma antecipação do período que se inicia com o livro 50 do ciclo, algumas considerações muito precoces dos criadores no passado são apresentadas:

Com o romance 49, a primeira parte da história humana é encerrada. O trabalho de um ciclo não pode e não deve ser o de embelezar a história que começou com o volume 1 que não teve limites.

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Cafezinho do zap-zap! - Fã de Perry

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Fã de Perry

Um presente para Rhodan – nos seus 55 anos

 

SONHO DESDE MENINO

UMA ASPIRAÇÃO HUMANA

ESCONDIDA NA ALMA.

NOSSO PASSADO FAZ BROTAR,

IDEAIS DE PAZ E SOSSEGO,

NESTE MAR DE MENTIRAS E DESASSOSSEGO.

MAS A ALMA A MENTE ACALMA.

RELEMBRAMOS UM PASSADO SANGRENTO,

SOBREVIVEMOS AO PRESENTE NO GRITO.

E CRIAMOS UM FUTURO DIFERENTE DENTRO DE NOSSA MENTE.

SEM PRECONCEITO DE COR.

SEM LIMITE DE VALOR.

APENAS COM O CALOR DO NOSSO AMOR.

POR TODO SER QUE VIVEU,

MESMO O AGORA, QUE É SEU!

NOSSA MENTE SEM LIMITES,

ENXERGA UM FUTURO IMAGINADO.

ONDE O UNIVERSO É UM PRESENTE,

PARA UMA HUMANIDADE UNIDA E CRENTE!

Projeto traduções

Antonio Angelo

Maceió, 10/09/2016

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Cafezinho do zap-zap! - Falta

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Falta


 

Falta Colaboração

Falta Integração

O que não falta é Deterioração.


 

Mas, ainda bem que não falta Reiteração.

Por que, na falta de Superação.

O que seria de nossa Consagração?


 

Agora não falta Proliferação.

O que falta é Interação.

Quem sabe um dia não faltará Cooperação.

 

Márcio Inácio

Cafezinho do zap-zap - Projeto traduções

Belo Horizonte, 23/02/2017

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Cafezinho do zap-zap! - O Chamado do Cosmo

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O Chamado do Cosmo

"Para quem sonha sem limites. O universo é a sua casa!"

 

AS TERRAS JÁ SÃO CONHECIDAS…

O MAR É UM MISTÉRIO…

E O COSMO É UM MISTÉRIO DESCONHECIDO!

VIAJAR POR ELE COM A MENTE,

DESMENTE FATOS,

CRIA-SE A SEMENTE.

A SEMENTE DA VIDA,

DESCONHECIDA DO COSMO,

AGE EM NÓS COMO UM ÍMÃ, UM ALGOZ.

NOS FAZ SORRIR DA DESCOBERTA,

AINDA ENCOBERTA.

NOS LEVA A VIAJAR SEM SAIR DO LUGAR.

UM MODO PODEROSO DE DESVENDAR OS MISTÉRIOS,

ONDE O INFINITO MOLDA A NOSSA IMAGINAÇÃO,

SEM QUALQUER LIMITAÇÃO.

VOAR VOAR SEM SAIR DO LUGAR.

CRIAR CRIAR SEM NUNCA SACIAR.

FUGIR FUGIR DESTE MUNDO CONHECIDO.

CHEGAR CHEGAR NUM MUNDO DESCONHECIDO.

LEVAR LEVAR E AOS AMIGOS EMBALAR.

ESCREVER ESCREVER E NUNCA DEIXAR DE LER!

Projeto traduções

Antonio Angelo

Maceió, 05/09/2016

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Cafezinho do zap-zap! - OS ETERNAMENTE BONS

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OS ETERNAMENTE BONS


 

Amanhecendo.....

Uma brisa fresca, num dia claro.......

E eu aqui, estática...............

 

Eu aguardo - o sol - a chuva - o bicho - o homem.

Sirvo sem distinção - sem emoção.

Estou aqui em missão.

 

Observo passar a luz e a escuridão.

Do vermelho ao azul do cinza ao negro.

Fico seca - sinto a umidade - molhada eu pingo.

 

Tenho pés firmes com dedos fortes.

Abraço e racho com força a rocha profunda.

Mergulho bem fundo na água do mundo.

 

Vivo da Terra - transformo ela - retorno a ela.

Sirvo o mundo - seja noite - seja dia.

Eles chegam e partem como se EU fosse um mercado.

 

Tenho corpo e belos braços.

Meus dedos são pequenos ou grandes - duros ou delicados.

Quase sempre verdes - nem sempre assim.

 

Todo ano fico bonita e rica.

Oferto de graça aquilo que tiro do ar - da água - da rocha escura.

É só chegar - pular - subir - colher. Ou deitar e esperar cair!

 

Mas este não é o meu pesar!

Este não pode ser o meu reclamo!

Pois amo viver por esta razão!

 

SÃO ELES...…

 

Arrancam meus dedos em desespero,

meus frutos não maduros e meus braços imaturos.

 

POR QUÊ? PARA QUÊ?

 

Atiram o meu corpo ao solo sem pensar!

Uma sombra fresca a menos só pode incomodar!

Para no fim, nada de bom surgir de mim.…

 

Mas nada falo - nada digo por este castigo.

O único som que de mim escuto, não é de mim um produto.

É o som da machada em meu corpo...

A cada golpe carne minha se desprende e uma vida vai morrendo.

 

Vou ficar ali, deitada, bem quieta. Desidratando em silêncio enquanto a seiva fluir.

Em seguida vou secar - vou morrer. Com sorte uma semente vai sobreviver.

Enquanto relaxo e durmo, eu serei o adubo de meus parentes e de minha semente.

Sem raiva nem choro, mas reconheço minha vida de quase dor.

 

Não vejo, não falo, não sinto. Não me mexo, estremeço ou reajo.

Sempre crescendo e amadurecendo. Florindo, parindo e semeando.

Servindo a todos com de tudo um pouco.

 

Tenho por fim um fim. E talvez um começo em novo endereço.

Convenhamos, o nosso mundo é vasto e infinitamente variado...

"E eu sou apenas uma das vidas que doa vida sem se importar com a própria vida!"

 

 

Antonio Angelo

Cafezinho do zap-zap - Projeto traduções

Maceió, 09/11/2016

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Cafezinho do zap-zap! - QUE?

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QUE?

 

FAZÊ O QUÊ?

SE NADA DO NADA,

SEM NADA FAZER,

TEM TUDO A VER!

FAZÊ O QUÊ?

NA AUSÊNCIA DE TUDO

COM UM POUCO DE NADA,

DE NADA FAZER!

FAZÊ O QUÊ?

QUANDO NO VAZIO DA VIDA

DA MORTE FINITA,

GERAMOS A VIDA

SEM MEDO DO NADA!

FAZÊ O QUÊ?

CAMINHAMOS SOZINHOS

NA ESTRADA VAZIA

DE UM CLARO DIA

PARA UMA NOITE VAZIA!

FAZÊ O QUÊ?

JOGAMOS COM O FUTURO

UM JOGO DE AZAR.

NO DIA A DIA, NA CAMA,

NO MEIO DA SEMANA,

NUM DIA DE AZAR

ELA VAI CHEGAR!

FAZÊ O QUÊ?

É ASSIM DESTE JEITO,

UM JEITO SEM JEITO.

COM UM POUCO DE AZAR

A SUA VIDA VAI FINDAR.

FAZÊ O QUÊ?

NO LIMIAR ESCURO E FRIO DA VASTIDÃO,

NÃO HAVERÁ PERDÃO.

QUER QUEIRA QUER NÃO

É O TEU DIA DA RAZÃO!

FAZÊ O QUÊ?

Antonio Angelo

Cafezinho do zap-zap - Projeto traduções

Maceió, 06/09/2016

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Cafezinho do zap-zap! - Um Dia...

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Um Dia...


 

Que flutuem no céu naves espaciais.

Que brilhem nos sonhos os segredos que um dia lhes darão forma.

Que sejam dias de paz.

Que meus sonhos voem no espaço vazio.

Verdadeiros, velozes e comigo a ler um livro.

Verei pela janela o planeta se aproximando e não estarei sonhando.

Nesse dia o PR do mês será publicado em Vega.

E eu quem sabe leia primeiro que aqueles que estão na Terra.

 

Dito Muniz

Cafezinho do zap-zap - Projeto traduções

Rio de Janeiro, 30/01/2017

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Cairo em 1344 NCG!

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Da última vez, se falou sobre a representação do Egito em geral e em particular o Cairo na série Perry Rhodan.

Em 2009, foi lançado o livro de regras para o jogo de role-playing de Perry Rhodan que trouxe a história da Liga dos Terranos Livres, o banco de dados do RPG – em particular, a história de fundo para a construção da pirâmide e, assim, o armazenamento do olho de Laire, vem de Rainer Castor – que somou os detalhes da atmosfera e acrescentou uma descrição nele para o Cairo em 1344 NCG. (na página 130). Isso agora não é canônico na série em cem por cento, mas como partiu de Rainer Castor há “aprovação” da parte da LTL (que até mesmo trabalhou ansiosamente com ela) e a informação deve ser bastante útil (temos do ano 3.585, naquela ocasião sob “intervenção do deus”...):

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Como foram as experiências com Os Senhores da Galáxia...? - Parte 1

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No episódio 2790 da primeira edição assombram sempre pela ação do livro estátuas misteriosas de uma pessoa chamada Zeno Kortin. Este foi, como sabemos agora, um dos lendários Senhores da Galáxia, que governaram por milhares de anos em Andrômeda, até o ano de 2406 dC, quando foram derrotados pelos terranos – tudo no mesmo ciclo (livros 200-299), história decorrida de julho de 1965 a maio de 1967 e está incluído nos volumes de prata 21 a 32.

Desde então, os Senhores da Galáxia (ou abreviadamente SdG) têm desenvolvido uma reputação mítica e veem sempre reaparecendo na série (inclusive nos volumes a partir do 2500, quando a ação é deslocada para Andrômeda e antigos processos). E agora Zeno Kortin. Um tefrodense, que é descrito como Maghan, título a que teria direito somente um dos Senhores da Galáxia.

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Erotismo em Perry Rhodan

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 — Eu penso que este é um tema até então negligenciado de forma errada. – Delorian Rhodan escreveu, não muito tempo atrás no fórum do Perry Rhodan na Alemanha. Mais tarde, Beitrager acrescentou: — Conheço pessoas que adorariam ler isso. — Nós acabamos em uma discussão referente que homens e mulheres parecem ter ideias diferentes sobre o termo "erótico." Houve um longo debate. Se você quiser ler tudo que foi discutido, veja aqui (http://forum.perry-rhodan.net/viewtopic.php?f=10&t=6821).

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Erotismo em Perry Rhodan – a virada

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Nó último artigo vimos como a atitude em relação a "sexo e erotismo" prevaleceu na série Perry Rhodan desde o começo – e por quê. Agora, vamos olhar com uma atenção maior o seu desenvolvimento.

A partir do volume 700, vemos como os padrões de Scheer são adaptados lentamente para o tempo atual. Então no volume 715 ("Luta pela SOL", de H.G. Ewers) um "delicado" e "com aroma de ervas" cibernética (afinal, uma dr. assim condizente) para uma noite aconchegante em uma expedição planetária com o nosso Perry:

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Lika

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Um conto gentilmente cedido pelo Paolo Giovanoli inspirado no imaginário de Brian Aldiss e seus super brinquedos…

As últimas palavras que vieram à memória de Lika antes que seus circuitos positrônicos viessem à falência foram "eu te amo".

"— Eu te amo. Pra sempre vou te amar. Você é a minha amigona.

Não vamos nos separar?

Nunca. Eu te amo muito.

Pra sempre?

Pra sempre."

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Momentos marcantes na história de Perry Rhodan na Alemanha e Brasil.

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A série foi criada em 1961 por K. H. Scheer e Clark Darlton. Inicialmente concebida para ser uma trilogia, ela se tornou um sucesso duradouro, ultrapassando o número de 2.855 histórias em maio do ano 2016. Houve diversas reedições, incluindo edições totalmente revisadas em formato de capa dura. Significativamente relacionadas a ela, estão as séries “Atlan” e “Romances Planetários” (“Livros de Bolso”), nas quais os temas da série têm um desenvolvimento mais pormenorizado. Nas décadas que se seguiram ao seu lançamento, surgiram histórias em quadrinhos, numerosos itens de colecionador, várias enciclopédias, áudios, canções etc. A série foi parcialmente traduzida para diversos idiomas. Ela também foi passada para o cinema com o filme Mission Stardust (1967), muito criticado pelos fãs.

Em 1962, um novo membro juntou-se ao grupo de autores: William Voltz. Ele deixaria uma forte marca na série a partir da década de 1970. Voltz era um jovem autor que escrevia para revistas amadoras, os chamados fanzines, e era uma pessoa que K.H. Scheer havia sistematicamente mantido próxima do grupo de escritores.

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O Clone

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Neste mês trazemos um conto “resgatado” da lista de Perry Rhodan no Yahoo… Antes que o Yahoo acabe definitivamente… Esperamos que gostem e que esse conto tenha ficado ao agrado do autor, Claudiney Martins, que infelizmente não conseguimos contato…


 

O Clone

Em um antigo planeta arcônida, durante o segundo ciclo.


 

Personagens principais deste conto:

Perry Rhodan – Administrador Geral do chamado Império Solar da Humanidade

Gucky – Um alienígena de um pouco mais de um metro, parecido com um rato e com um único dente que lembra um castor. É um dos mais poderosos aliados da Humanidade. Tem os poderes de telepatia, telecinese e teleporte. É muito brincalhão.

Arcônidas – Raça alienígena que já teve um gigantesco império onde a Terra foi uma colônia. Hoje é decadente e governada por um gigantesco cérebro positrônico.

Aras – Raça descendente dos arcônidas e inimiga da Humanidade. São especialistas em medicina.


 

Quanto tempo demorara? — perguntou o capitão Larry Kerkov. Homem alto e forte. Sentia-se completamente desconfortável no interior daquele túnel de pedras.

Além do aperto, eles tinham que utilizar o traje espacial completo, pois a tênue atmosfera do planeta não era respirável, além de ser quente demais. Estavam à sombra, no subsolo de uma pequena montanha, mas a temperatura externa passava dos sessenta graus.

Creio que uns vinte minutos. — respondeu Jean Clidows. Sujeito falastrão de estrutura frágil. Suas pernas e seus braços longos davam a impressão de completo desalinho, o que não era de todo errado. O sujeito era desastrado em seus movimentos e os óculos que usava não ajudavam na aparência.

Jean Clidows era tenente e semimutante, isto é, um mutante de poderes não muito fortes, mas que estavam sendo aproveitados na Frota Solar como membros dos Grupos de Operações Especiais, o GOPE. Formavam-se estes grupos com o objetivo de liberar os integrantes do Exército de Mutantes para operações supostamente mais importantes.

Vou verificar se tem alguma armadilha de quinta dimensão — continuou o semimutante.

Larry ficou observando enquanto Jean se concentrava e virava o seu rosto com os olhos fechados em direção à parede metálica de uma antiga base. Como o semimutante havia lhe descrito, naquele instante ele enxergava os campos de quinta dimensão. Tudo aparecia como em raio-X, mas em cores verdes e em uma semitransparência na mente do mutante, até uma distância aproximada de quinze metros. Eram os hipercampos que todos os materiais possuem, mas as máquinas que a utilizam concentram em tal quantidade que elas aparecem em tonalidades de amarelo a vermelho para Jean.

Cansou de observar o trabalho do tenente. O capitão Larry já o tinha visto em ação inúmeras vezes nos treinamentos e virou para os outros dois integrantes do 13º GOPE. Miguel Lourenzo era um sul-americano de feições indígenas; atarracado, forte e dono de uma personalidade extremamente prática. Sempre bem disposto e bem humorado. Nunca discutia uma ordem dada, mas volta e meia dava sugestões que surpreendiam pela perspicácia. Fora ele que descobrira o túnel na montanha que os levara até a parede da base Ara.

Jordan Tegon era um francês enorme e muito forte. Maior que o capitão, fazia figura cômica naquele apertado túnel. Não tinha uma inteligência invejável, mas sua pontaria era certeira. O capitão resolveu convocá-lo para o GOPE, pois além desta qualidade ele tinha duas condecorações por atos heroicos.

Temos uma máquina a cinco metros à direita — disse Jean, ainda concentrado. — Ela trabalha com hiperenergia, não parece ser uma armadilha. No nível abaixo vejo alguns campos hiperenergéticos, mas estão quase fora do meu alcance. A parede não apresenta nenhum sinal de hipercampos.

As informações de um semimutante nem sempre eram confiáveis. O capitão Larry Kerkov era o responsável por tomar as decisões a partir delas. Se confiasse nas informações do tenente, poderiam abrir um buraco na parede da base para invadi-la. Isto se aquela parede fosse mesmo da base e não alguma outra construção, já que caminhar por cavernas apertadas poderia deixar o indivíduo desorientado. Depois de entrarem na base ara, provavelmente acionando algum tipo de alarme, eles teriam que descobrir o laboratório onde supostamente a raça descendente dos arcônidas, especialista em medicina e afins, estava tentando clonar uma importante personalidade do Império Solar da Humanidade. Os aras haviam conseguido um pedaço de tecido desta pessoa, mas ninguém sabia de quem. A primeira missão do grupo tinha uma importância vital para o Império. Entretanto havia outro problema.

Prestem atenção — solicitou Larry. — Temos pouco mais de uma hora de oxigênio. Vocês sabem que é justamente o suficiente para chegarmos ao local de encontro dois onde uma nave de apoio nos recolherá. Contudo, fui designado para uma missão e pretendo cumpri-la, apesar da pouca possibilidade de sucesso. Não peço, muito menos ordeno que me sigam. Pelo contrário, estou liberando oficialmente todos da missão, para que salvem suas vidas. Para os que resolverem me acompanhar não posso prometer nada, apenas dar a escassa esperança de, uma vez encontrado o laboratório, identificado e roubado a amostra de tecido, buscarmos tanques de oxigênio ou mochilas recicladoras aras para termos ar respirável e desta maneira alcançarmos o ponto de encontro três.

Estou com o senhor, chefe — falou Miguel de imediato. Como sempre o mais espontâneo.

Vocês não iriam longe sem os meus poderes — disse sorrindo o semimutante e sem dar tempo, virou para Jordan e perguntou: — E você, João Grandão? Vai ou não vai?— E você, João Grandão? Vai ou não vai?

O francês não respondeu. Ou melhor, respondeu com ação. Levantou o pesado fuzil energético e apontou para a parede da base. Jean, que estava entre a arma de Jordan e seu alvo, moveu-se com uma agilidade que surpreendeu Larry, posicionando-se atrás do grupo. Vinte minutos depois uma lufada de ar soprou em direção ao grupo erguendo poeira no túnel. Um buraco de meio metro de diâmetro tinha sido aberto na parede. Sem perda de tempo, Jordan forçou seu grande corpo pela pequena abertura. Miguel foi em seguida e Larry deixou Jean por último. Era a ordem que sempre seguiam nos treinamentos e agora era posta em prática pela primeira vez. A manobra tinha a intenção de preservar a vida do integrante especial do grupo.

Larry quase foi atropelado por um robô de manutenção que se apressava a chegar ao buraco aberto na parede. Ele escutou pelos alto-falantes de seu capacete o sinal que sabia ser de alarme. Não demorou muito e começaram aparecer os robôs de guerra que deviam fazer a vigilância da base. Sem tempo a perder, ele deu a ordem de avançar pelo longo corredor que estavam. Seguindo o padrão militar de avanço e cobertura, tendo sempre à retaguarda o tenente Jean, eles avançaram rapidamente, graças também a falta de organização dos robôs de guarda aras que atacavam individualmente. Logo os robôs cessaram o ataque e recuaram. Aparentemente tinham notado que seu contra-ataque era infrutífero e resolveram se agrupar antes de atacar novamente. Eles não usavam armas pesadas, provavelmente para não destruir as instalações.

O capitão Larry não perdeu tempo.

Jean, veja o que tem abaixo de nós — ordenou. — Miguel, tente abrir uma das portas. Os robôs de manutenção já fecharam o vazamento de ar e as portas já devem estar liberadas.

Logo Jean forneceu o seu relatório: — Muitas máquinas trabalhando com hiperenergia. Devem ser os geradores da base.

Muitas máquinas trabalhando com hiperenergia. Devem ser os geradores da base. — Ótimo — disse Larry. — Se os geradores estão logo abaixo de nós, estamos no andar principal da base, já que os aras têm o costume de construírem suas bases com os geradores por baixo e os laboratórios principais no piso imediatamente superior.

Enquanto Jordan, deitado no chão, dava certeiros tiros nos robôs que avançavam agora em bloco, Larry entrou no laboratório que Miguel Lourenzo havia aberto. Ele mantinha três cientistas aras sob a mira de sua arma. Logo os aras foram trancados em armários, não sem antes apontar, após ameaças nada sutis, onde ficava o laboratório de clonagem.

Avançaram até a porta do laboratório indicado que ficava bem próximo. Miguel e Jordan se deitaram no chão atirando sem cessar nos robôs que não se importavam com as terríveis perdas que estavam tendo. O ar do corredor foi ficando escuro e irrespirável e os terranos tiveram que fechar seus trajes novamente. Jean e o capitão Larry entraram no laboratório procurado.

Como vamos encontrar a amostra de tecido neste mar de armários? — perguntou Jean embasbacado. — Temos alguma ideia do que temos que encontrar?

Procure nos refrigeradores por um recipiente retangular transparente — respondeu o capitão já com as mãos na obra.

Os minutos foram passando e a luta fora do laboratório foi tornando-se mais dura.

Como está aí fora, Miguelito? — perguntou Larry pelo rádio.

O capitão era o único que o boliviano permitia chamá-lo daquele jeito, mas sentia-se desconfortável da mesma forma.

Podemos segurar mais uns minutos — respondeu o sul-americano —, então teremos que recuar ou usar granadas.

A busca continuou com mais pressa. Alguma coisa incomodava Larry naquela história toda. Se ele tivesse tempo para pensar... Mas tinha que procurar com rapidez nos inúmeros refrigeradores do laboratório. Jean tinha passado para uma sala ao lado e o capitão torcia que ele tivesse mais sorte.

Ratos me mordam, capitão! — berrou pelo rádio o semimutante. — O senhor não vai acreditar no que eu encontrei! E também não vai gostar nem um pouquinho.

Fale logo, homem! Encontrou o tecido?

Mais do que isto, capitão. Encontrei um ser clonado inteirinho e duvido que o senhor adivinhe de quem era a "fôrma" que estávamos procurando.

O comandante do primeiro GOPE estava a ponto de perder a paciência com o tenente, porém se esqueceu de qualquer reprimenda que pretendia dar ao ver o ser dentro de um tubo transparente.

Essa não! — disse Larry apenas.

O que vamos fazer, chefe? Já pensou se os aras conseguirem uma aberração desta? Um Gucky amigo já é um problema, imagine um como inimigo?

Não temos como levar o clone. Vamos destruí-lo com os fuzis, armar as bombas e cair fora. De qualquer forma já sabemos de quem eles possuem o tecido. Atire nele enquanto armo as bombas que destruirão a base.

Jean mirou na cabeça do clone que estava dentro do tubo transparente. Por um momento achou que o nariz do clone de Gucky tinha mexido, intrigado, baixou a arma e olhou. Sua mente devia estar lhe pregando uma peça. Voltou a mirar e quando pensou em atirar o clone abriu os olhos. Jean não conseguiu evitar a surpresa e acabou dando uns passos para trás e esbarrando no capitão que, abaixado, jogava uma das bombas sob uma bancada.

Cuidado tenente!

Senhor, o bicho está vivo!

Larry sentiu tensão na voz de Jean e levantou-se verificando que os olhos do clone estavam abertos.

Atire! — berrou ele.

Jean atirou quase que de imediato, mas foi em vão. O rato-castor clonado piscou um dos olhos e sumiu. Um barulho alto de estouro de espumante se fez ouvir, quando o ar preencheu o espaço que o clone estava, no mesmo instante que o raio da arma de Jean atingia o local.

Droga, tenente! — berrou o capitão. — Você demorou! Agora a nossa chance é que as bombas destruam este local e levem o clone do Gucky junto.

Antes de saírem da sala, armaram mais algumas bombas, mais do que suficiente para destruir toda a base. Esconderam-nas o suficiente para dificultar sua localização. Do lado de fora, lançaram uma granada explosiva que destroçou o laboratório e tornou quase impossível localizar as bombas a tempo de desarmá-las. Desta maneira, garantiram que a base iria pelos ares.

No corredor, as coisas estavam pretas, literalmente. Miguel e Jordan tinham começado a usar as granadas e não se via os robôs devido a fumaça negra que tomava conta de tudo. Recuaram sem muitos problemas até o ponto onde haviam entrado. O remendo feito às pressas pelos robôs de manutenção era mais fraco que a parede e Jordan não levou cinco minutos para abri-lo novamente. Sem dificuldades, saíram da base e percorreram a caverna de volta até sua saída. Substituíram suas garrafas de ar pelas que pegaram na base e que, por terem o mesmo encaixe das garrafas dos arcônidas, podiam ser usadas sem problemas de conexão.

Muito bem — disse o capitão Larry. — Vamos afastar-nos o mais rapidamente possível da base. A explosão será grande.

Falar era fácil, mas movimentar-se rápido em uma gravidade baixa era um problema. Eles tiveram que desligar os gravitadores, pois a temperatura externa sob o sol estava acima de 150 graus centígrados, o limite que suportava o traje espacial. Desta maneira economizavam energia que podia ser aproveitada para refrigerar o interior. Mesmo assim, a temperatura interna atingia o incômodo patamar de 48 graus, o que tornava a respiração um ato de autoflagelação. Pelo mesmo motivo não haviam trazido as mochilas de voo. Tinham que percorrer dez quilômetros para chegar ao local de encontro, mas antes teriam que se proteger da explosão. Ela jogaria boa parte da montanha na qual a base estava encravada para os céus. O risco que um grande pedaço desta montanha caísse em cima deles não era desprezível.

Com um olho no terreno e outro no cronômetro, eles avançaram. O cansaço os atingiu quase que de imediato, quando ainda estavam a poucas centenas de metros da caverna da qual haviam saído. A água era consumida em grandes quantidades, na esperança que ela pudesse fazer o que o sistema de refrigeração não conseguia. Quando faltava menos que um minuto, Larry dirigiu o grupo para uma cratera pequena e profunda, que podia oferecer alguma proteção. Ele não se enganou, pois sabia que estavam muitos próximos da base e o grupo corria o risco de ser atingido pelos destroços.

Depois de se acomodarem em uma das encostas da cratera, Larry passou a informar o tempo restante para a explosão.

Faltam vinte segundos!

Eu queria que a minha água estivesse mais fria — comentou Jean.

Silêncio.

Faltam quinze segundos!

Que calor — reclamou Jean.

Dez segundos. Nove...

Um movimento na borda da cratera. Antes que os quatros terranos tivessem tempo de olhar para cima um objeto rolou encosta abaixo. Para o espanto de todos eles reconheceram o objeto imediatamente: uma das bombas armadas na base ara.

Sete. Seis...

O pavor foi ainda maior quando notaram que a contagem regressiva era agora feita por um pequeno ser. Ele estava na borda da cratera e lançara a bomba para dentro dela. Apesar do traje espacial a figura era bem conhecida.

Gucky!! — disseram todos.

Na verdade o clone dele que ironicamente terminava a contagem.

Quatro. Três. Tchau, tchau.

Com a teleportação do clone do rato-castor, os olhos do grupo se voltaram para a bomba no fundo da cratera. Nunca se soube o que os demais pensaram naquele instante, mas Larry se lamentou de falhar logo na primeira missão e fechou os olhos em uma defesa instintiva totalmente inútil.

Demoram alguns segundos para notar que não haviam morrido. A bomba não explodira. Larry foi o primeiro a recuperar o controle de si.

Todos para fora da cratera! — berrou ele. — Rápido!

Em poucos segundos passavam por sobre a borda para darem de cara com um rato castor de olhos arredondados brilhantes e dente solitário a amostra pelo visor do capacete. Uma clara indicação que ele se divertia muito com tudo aquilo.

Os quatro homens pararam imediatamente. Jean e Jordan ergueram suas armas e apontaram para o rato-castor que não conseguiu mais conter a gargalhada.

Baixem suas armas — ordenou Larry.

Você está louco — protestou Jean. — Temos que matar o clone.

Ouça o capitão, tenente — disse o rato-castor em meio às risadas que aos poucos foram parando. — Ele já entendeu o que aconteceu.

Eu também — falou o tenente semimutante, sem baixar a arma. — Não sei como você descobriu as bombas e as desarmou. Mas agora quer brincar conosco antes de nos entregar para os aras. Porém, não vou servir de cobaia para estes açougueiros galácticos.

Tentou apertar o gatilho, mas ele não se mexeu. O rato-castor segurava a alavanca de disparo com sua telecinese.

Pare com isto, tenente Jean — ordenou novamente o capitão. — Deixe o tenente Gucky explicar.

Obrigado Larry. Como você já descobriu tudo não passou de um teste para medir a determinação do grupo antes de colocá-los realmente em serviço ativo. O clone na verdade não era ninguém mais do que eu mesmo em brilhante atuação, não acham? Para que não haja confusão eu vou repetir: não existe nenhum clone e tudo não passou de um teste. Os aras da base eram robôs, a base ara é uma antiga base arcônida há muito tempo abandonada. Estamos no planeta Porta do Inferno, que hoje é um posto avançado do Império Solar e não em um planeta deste povo. Posso adiantar que vocês passaram no teste e espero por vocês na nave IGARA que está pousando no ponto de encontro. Vamos comemorar com muito suco de cenoura. Eu pago. Espero por vocês lá.

Gucky se teleportou. O cruzador ligeiro IGARA já descia no planeta. Jean e Jordan estavam ainda boquiabertos com tudo o que o rato-castor havia dito, mas ele não tinha terminado ainda. Reapareceu na frente do grupo, o que fez com que Jean e Jordan erguessem instintivamente seus fuzis mais uma vez. Gucky falou com o seu grande dente roedor se destacando:

Espero principalmente o senhor, tenente Jean. Quero que me explique o que quis dizer com "um Gucky amigo é um problema" e a sua definição da palavra "aberração".

Jean engoliu em seco e não pode dizer nada em sua defesa, pois Gucky já havia desaparecido.

Vamos logo pessoal — animou-se Miguel Lourenzo. — Talvez o capitão da IGARA libere alguma cerveja para a nossa comemoração.

Acho difícil — comentou o capitão Larry. — Teremos mesmo que nos contentar com o suco de cenoura do Gucky.

Os quatros componentes do 13º Grupo de Operações Especiais se encaminharam na direção da nave que pousava. Quase todos não viam a hora de chegarem na IGARA, tirarem seus trajes e respirarem ar fresco. Mas um deles caminhava um pouco mais devagar, sem pressa de chegar à nave e surpreendentemente quieto. A verdade é que nas próximas horas a vida não seria nada fácil para o tenente Jean Clidows.


 

FIM


 

Claudiney Martins

Abril de 2006

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O Contador de Histórias - A Cabana

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Trazemos a sequência do conto do integrante Antônio João Ângelo, O Livre-pensador (Josué). A segunda parte d´O Contador de Histórias.

A Cabana

 

IMG 7693Tio Josué passou a conduzir uma conversa alegre, após nos acomodar em poltronas rústicas e confortáveis. Enquanto minha tia brincava com a Mona no colo.

Os seus filhos Rubem, podem brincar com o Amigo depois que lancharem. Nosso velho cão é de total confiança.

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O Contador de Histórias - A Varanda

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Trazemos a sequência do conto do integrante Antônio João Ângelo, O Livre-pensador (Josué). A terceira parte d´O Contador de Histórias.

A Varanda

 

IMG 7369Estamos em junho de 1978 e minha família está novamente reunida. São treze membros; três filhos: Leto o primogênito, com sua esposa Karla e seu filho Fábio; a Sophie com o marido Jorge e seus filhos: José, João e Karla; e a minha caçula Karim, com o marido Ted e a minha netinha Luiza, com apenas seis meses. Hoje a noite temos alguns convidados e parentes: o Rubem com a sua esposa Ivete, e seus dois filhos. Eles já estão conosco há alguns dias. O mais velho, o pequeno Eleazar, despertou-me um carinho todo especial. Ele é esperto e curioso. Vou observá-lo com atenção esta noite.

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O Contador de Histórias - Férias, na Serra do Rio do Rastro

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Trazemos a sequência do conto do integrante Antônio João Ângelo, O Livre-pensador (Josué). A quarta parte d´O Contador de Histórias.

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Férias, na Serra do Rio do Rastro

 

Eu tinha então 13 anos, e nossa família era constituída por meus pais, minha irmã, e os pais de minha mãe. Morávamos no município de São Miguel das Missões no estado do Rio Grande do Sul.

Meu pai era médico e mamãe uma professora. Nesta época, a minha irmã Karen tinha apenas quatro anos - Como sabem, ela faleceu há cerca de dez anos. E nossos avós por parte de mãe, moravam conosco.

Especialmente com o meu avô João, eu tinha um relacionamento para lá de especial. Quanto a minha querida avó Karol, ela era uma beata de carteirinha. A sua devoção era lendária. Recordo-me como costumava exibir, com orgulho indisfarçado, as suas chagas. Eram marcas arredondadas e escuras em ambos os joelhos. Causadas por permanecer ajoelhada por horas e horas em profunda adoração na igreja de nossa pequena cidade.

Naquele ano, decidimos não veranear na praia de Torres, no estado do Rio Grande do Sul. Meu pai entrou em contato com Samuel, o meu avô por parte de pai. Ele vivia nas serras do estado de Santa Catarina, junto a outros parentes de nossa grande família. E fomos convidados a ocupar uma linda casa, localizada próximo a cidade de São Joaquim. Onde atualmente é o parque nacional dos Aparados da Serra. Este lugar, fica a uns cem quilômetros de onde estamos. A casa ainda esta lá e é habitada até hoje.

Após dias de meticuloso planejamento, principalmente devido aos cuidados com a saúde de Karen. Partimos com o nosso surrado Ford de cor preta, arrastando de má vontade um carrinho coberto de lona. Onde os apetrechos de Karen, ocupavam quase todo o espaço.

Durante a longa viagem, passamos perto do mar, subimos serras e atravessamos muitos rios e riachos. As pequenas janelas do carro eram vitrines coloridas e fugazes. As vilas dos colonos atraiam a minha atenção, com suas casas de vários estilos de construção. Principalmente aquelas de telhados pontudos. E aí, não deu outra, passei a cobrir o meu avô com uma torrente de perguntas.

Como antigo marceneiro que era, ele explicava tudo de boa vontade.

— “Meu neto, observe a copa dos pinheiros a nossa volta. Você vê algo neles semelhante as casas?”

Pensei, pensei, e acenei para ele afirmativamente. É a forma cônica do telhado das casas, não é?

— “Parabéns! A inclinação acentuada da copa das diversas espécies de pinheiros, impede que a neve se acumule sobre elas e cause danos. Assim como aconteceria com as casas".

"A natureza é a melhor professora do universo Josué. Ela é capaz de tornar até as árvores que não tem cérebro, seres sábios. No entanto aqui na serra, o perigo de nevasca é quase inexistente. Eu nunca soube de uma nevasca forte o bastante para por em perigo os seus habitantes".

"Os colonos mantêm suas casas assim, com esta arquitetura, como uma forma de preservar a sua cultura. Pois vieram de terras distantes, onde nevascas são constante. Observe com atenção Josué, e verá distintas formas de construir as casas. Alguns preferem madeira, como os ães e íços, outros como os açoreanos e espanhóis, a alvenaria. Para mim, é suficiente o formato dos telhados, portas, janelas, e o material de construção das casas; para poder afirmar com alguma certeza, o povo que a construiu".

Aproveitando a sua boa vontade. Eu lhe perguntei o porquê de algumas igrejas dos povoados possuírem imagens e belos vitrais coloridos. Enquanto outras, pareciam tão simples, sem nenhum adereço. E ele em sua eterna gentileza e paciência me respondia sempre.

— “Filho, esta é uma terra de imigrantes. Aqui na serra estão representados um grande número de povos, vindos das mais variadas partes do mundo".

"Grande parte deles, Josué, a sua família vêm reunindo aqui há gerações. E eles trouxeram consigo as suas diferentes formas de honrar a Deus. Os católicos, por exemplo, apreciam imagens e belos vitrais em suas igrejas. Já os protestantes ou luteranos, não compartilham desta cultura.”

Ouvi um resmungo baixo ao lado de vovô. E a minha avó falou cheia de convicção. — “São todos uns pecadores e traidores do representante de Jesus na Terra - São Pedro. Ele foi o maior dos apóstolos e o legítimo herdeiro do filho de Deus na Terra. Glória eterna, ao meu Senhor, Jesus Cristo!"

Curioso, eu olhei para o vovô. Ele me deu uma piscadela divertida e me cutucou levemente. Então, dei um pigarro e falei o protocolo para situações assemelhadas.

Amém!

E continuamos pulando pelo caminho, através de vales e montanhas. Vez por outra, meu avô descia do carro para obter informações nas vilas. Ele falava com entusiasmo e naturalidade, uma meia dúzia de idiomas.

Papai até brincou com ele.

— “Sr. João, parece que o seu conhecimento do Alemão, Húngaro, Italiano, Espanhol e sei lá mais o quê, não enferrujou nem um pouco!”

— “Ah, meu filho! Foram muitos anos perambulando nestas serras. Viajando de vila em vila, exercendo o meu ofício. Foi uma pena ter encontrado tão poucos amigos daqueles tempos."

E papai, continuou.

— “Sr. João, eu não sabia que conhecia tão bem estas terras. Não sei se sabe, mas a minha Família vive aqui a gerações, e tem verdadeira adoração por estes vales. Eu sou o único que resolveu viver longe".

— “Juarez, eu conheço a história da sua Família e sou amigo de muitos deles. Durante a minha juventude eu fui um construtor de casas muito respeitado por estas bandas".

Finalmente chegamos á serra do rio do rastro. Subimos uma cadeia de montanhas particularmente alta, através de uma estrada tortuosa e estreita da qual se divisava lá no fundo um rio. E por fim, avistamos os famosos e impressionantes capões de araucárias. Um campo aberto, suavemente ondulado e aparentemente infinito. Coberto de uma relva alta e dourada, entremeada aqui e ali por arbustos, pinheiros brabos e bosques de gigantescas araucárias.

— “Chegamos!!" — Falaram quase ao mesmo tempo, papai e vovô.

E avistamos após uma meia hora de caminho. No ponto mais alto de uma suave colina arborizada, uma charmosa casa de madeira e rochas.

Ela é cercada por um muro baixo de rochas velhas. Algumas araucárias e inúmeros arbustos, muitos deles floridos, rodeiam a residência. Achei tudo muito bonito, silencioso e relaxante. A arquitetura da casa era indefinida para mim, parecia baixa e atarracada. Embora forte e indiferente ao tempo.

Enquanto nos aproximávamos por uma delicada estrada coberta de cascalhos, escutei uma sinfonia de sons, sob os pneus do carro. Parecia um convite de boas vindas.

Vindo pelo caminho de seixos, um senhor de cabelos grisalhos caminha a passos firmes. Ele aparenta avançada idade, como meu avô. Seus gestos são comedidos, até reservados, típico destes moradores do interior. Usava um macacão azul desbotado e uma camisa branca de botões com as mangas arregaçadas. Era certamente um colono da região.

Olá! Bom dia a todos e bem-vindos! Meu nome é Morgan. Fui informado por seus irmãos, que o senhor viria para ficar conosco algumas semanas. Adiantei algumas compras, então, vocês têm algum alimento, água, lenha, querosene e algumas outras coisas.

Então meu pai o interrompeu, bem no meio de seu discurso, e com o seu melhor sorriso no rosto, falou.

É uma satisfação conhecê-lo, Sr. Morgan. Eu me chamo Juarez Moreno. Esta é a minha esposa Rosa. Meus sogros, Sr. João e a senhora Karol; e estes aqui são os meus filhos: Josué e Karen.

E muito obrigado, Sr. Morgan. Nos perdoe por todo o trabalho que lhe causamos. O Senhor vive por aqui?

Sim, nós temos um sítio aqui perto. Caso precisem de algo podem nos procurar, ou preferindo, dirijam-se até o povoado de Cerro Negro. Que fica a poucos minutos de carro, naquela direção. — E apontou para a esquerda na estrada.

Após estas apresentações, ele nos mostrou toda a casa e seus arredores. E explicou onde morava com a sua família.

Meu avô, após examinar com a paciência de sempre a estrutura da casa, chegou a conclusão de que era de origem açoreana. Era uma casa muito antiga e sólida. Passamos o resto do dia nos acomodando.

Adorei o meu quarto. Ele tinha uma ampla e rústica janela de uma folha, que teimou um pouco em descortinar a visão de um jardim com grandes árvores e um gramado verdejante. Como a cama era alta, dava para deitar e ficar contemplando a paisagem. As peças de mobília eram rústicas e pesadas. Pareciam feitas para durar séculos.

No dia seguinte, acordei bem cedo e fui explorar o terreno. Ao seguir pela estrada, encontrei dois garotos de minha idade.

Oi! Meu nome é Balton, e este é meu primo Phyl —, falou o mais alto e ruivo.

Eu me chamo Josué, sou sobrinho do tio Samuel, irmão de papai.

Caminhando, conversando e às vezes correndo, foi como acabou o encontro. O Balton e o Phyl pareciam conhecer cada palmo da região.

Ei, Josué! Vamos preparar umas varas para pescar? — Então, cortamos alguns bambus ali perto, e descemos uma ribanceira por um caminho estreito e pedregoso. E passamos a ouvir com nitidez o som de uma corrente de água poderosa.

Por aqui! — Grita Balton. — Este, Josué, é o rio do rastro. E bem ali, o melhor lugar para pegar carpas e trutas. No entanto, o mais complicado vai ser desenterrar as minhocas.

Por quê? — Pergunto eu.

O chão por aqui é cheio de pedras. Mas sabemos sempre onde encontrá-las. Não é, Balton?

Pode ter certeza. E, Josué, por favor, não espalha por aí o lugar das minhocas. Por aqui, saber isso vale ouro.

Bom, posso pelo menos contar ao meu pai e avô? Vou convencê-los a vir pescar amanhã.

Depois de um pouco de conversa, acabaram me deixando contar a eles onde existiam as melhores minhocas do lugar.

Foi um dia fantástico, e imaginar que haveria muitos outros dias iguais, ou até melhores. Nos sentamos sobre grandes rochas na margem do rio, e pescamos durante toda a manhã. Mas não estávamos sós, haviam outros pescadores na mesma margem e no outro lado do rio.

O rio não é profundo, e em todos os seus quase cem metros de largura, as suas águas geladas e cristalinas, borbulham e saltam a cada rocha. O seu leito é quase todo forrado de rochas pequenas, médias e gigantescas. Aquele rumorejar de rio nos causava uma sonolência gostosa, e o sol nos aquecia enquanto um vento gelado soprava naquele vale de sombra e sol.

No fim da manhã, após me despedir dos novos amigos, caminhei de volta todo contente. Com meia dúzia de pequenos peixes presos num cipó, e uma sensação de dever cumprido.

Bom, mamãe não pareceu ficar muito contente com os peixes, mas ao perceber a minha cara decepcionada, resolveu prepará-los para o nosso almoço. Foi onde recebi, finalmente, os merecidos elogios. Principalmente do meu avô.

No dia seguinte, bem cedo. Eu, meu pai e vovô, percorremos as mesma trilhas do dia anterior. Todos com varas, uma lata cheia de minhocas, e uma lancheira repleta de sanduíches e três garrafas de suco de morango com um pouco de creme de leite com açúcar. Ficamos no rio toda a manhã, e só regressamos quando a fome apertou. O que mais gostei neste dia maravilhoso, foi ser o guia de pai e vovô pelas trilhas do rio.

Enquanto retornamos, começou uma conversa de papai como vovô.

Então, Sr. João? — Falou papai. — Não seria melhor o Senhor entregar os peixes para a Rosa. Tenho a impressão de que ela não vai ficar muito contente se eu os levar. Você não acha, Josué?

Com certeza papai! — O vovô é que não pareceu ficar muito feliz com a ideia, mas assumiu esta honra duvidosa.

Os dias foram passando rápido. Eu já começava a sentir saudades deste lugar. Papai, quando não estava pescando com vovô, permanecia horas e horas tentando pintar alguma paisagem em aquarela. E o meu avô, com o seu cinto de marcenaria do qual quase nunca se separava, realizava infindáveis reparos na velha casa.

Quanto a mim, não parava um segundo quieto, sempre havia um novo lugar a explorar e o tempo passava voando. Em alguns dias, até os meus novos amigos ficaram cansados com tanta atividade

E uma ideia começou a germinar e se fixar em minha mente. Durante estas férias inesquecíveis, e não saía da minha cabeça. Um dia, no futuro, eu retornaria para cá. E seria para sempre. Se é verdade que todos temos um destino. A partir daquele momento senti no fundo de meu peito, e, passei a ter uma certeza: Iria viver e morrer naquelas belas terras da serra.1

O Livre-pensador (Josué)

1 Continua na quinta parte d´O Contador de Histórias no IG 23, em Dezembro de 2016!

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O Contador de Histórias - Introdução

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Desta vez, seguindo a sequência de publicação de contos dos integrantes do Projeto, trazemos o extenso conto do integrante Antônio João Ângelo, O Livre-pensador (Josué). Na primeira parte trazemos a introdução do local e personagens do ambiente d´O Contador de Histórias.

A Primeira Noite

O Princípio - O Tempo - A Máscara

 

IG 19 08 2016.....Hhumm,.... creec.... hhum,.... criic,.....hhumm,..... creec,....crcc,...cric. “Hoje, está escuro como breu. E esse nevoeiro denso como uma sauna é gelado que nem sorvete de menta. É típico nesta época do ano. Sinto-me lento, pesado, encharcado com tanta umidade e falta de calor. Mas não importa, tudo passa. E se o corpo não deseja exercício, agitemos a mente. Até os ossos desta velha cadeira de balanço precisam ranger seu vai e vem, e assim, justificar a sua existência".

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O Contador de Histórias - O Estranho

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Trazemos a sequência do conto do integrante Antônio João Ângelo, O Livre-pensador (Josué). A quinta parte d´O Contador de Histórias.

 

O Estranho


 

Após duas semanas neste paraíso, percebi uma certa inquietação em minha mãe. Com toda a minha atenção voltada às brincadeiras, não havia observado com atenção aos acontecimentos do dia a dia.

Bem, continuaria assim até aquela noite de sábado, quando retornei da casa de Phyl. Eu caminhava imerso em pensamentos, brincando com o vapor que minha respiração provocava na atmosfera gelada. E imaginando umas mil desculpas para explicar o meu retorno aquelas horas. Quando um canto de coruja devolveu-me a fria realidade.

Eu caminho por uma antiga e estreita trilha repleta de curvas. Margeada por rochas e arbustos que sempre escondem a curva seguinte. Do céu uma lua cheia traz algum conforto à minha escuridão. Apenas com o estreito facho da minha lanterna como guia. O chão é todo coberto de folhas e farfalha a cada passo. Estremeço só em pensar no mau funcionamento da lanterna.

O silêncio é assustador, e vez por outra é interrompido pelo lúgubre canto da coruja. Após mais algumas dezenas de passos, eu diviso por entre a vegetação a iluminação da nossa casa.

Ainda a matutar sobre uma desculpa para mamãe, eu abro a porta e entro na sala. Para minha surpresa, encontro mamãe embalando Karim. Quando ela percebe a minha presença, nada fala sobre a hora, e apenas me pede para levar Karim até o seu quarto.

Então, eu carrego a pequena em meus braços e a deito em sua cama. Protejo ela com cobertores e me volto para sair do cômodo. Antes de chegar à porta, eu percebo mas do que vejo, um movimento. Estaco imediatamente, olho ao meu redor e nada encontro. Mesmo assim, sinto o estômago embrulhar.

Enquanto estou curvado sobre o lampião reduzindo a sua luz, eu sinto um olhar fixo em mim. E volto a observar o quarto com um pavor redobrado. Fixando a minha atenção sobre um velho e estropiado boneco. Ele está jogado em um canto, entre outros brinquedos de minha irmã.

Reparo pelo canto do olho, e confirmo que a porta do quarto continua entreaberta. E um medo medonho invade a minha alma. Neste momento, percebo outro movimento no aposento e fico paralisado. Mas é apenas a minha irmã, que soluçando passa rapidamente pela fresta da porta.

Ao chegarmos repentinamente na sala a nossa mãe fica assustada. E nos pergunta o que aconteceu. Após eu lhe relatar, ainda um tanto confuso, aquilo que não entendia. Ela parece ficar seriamente preocupada e acaba levando Karim ao seu próprio quarto.

Ela retorna após alguns minutos com uma pequena caixa de madeira. E senta-se ao meu lado. Quando abre a caixa, ela retira do seu interior uma antiga bíblia e a acomoda carinhosamente em seu colo.

Filho, tem algo de muito estranho acontecendo aqui. Por três vezes a sua irmã despertou assustada em seu quarto. Quando a faço dormir e a levo até o seu quarto, ela desperta em seguida assustada.

Mãe, não sei se vai acreditar, mas tive uma sensação ruim ao olhar um boneco da Karim. Aquele sem um olho. E ele parecia me observar.

Olha Josué, isto não é uma brincadeira, a sua irmã parece sinceramente apavorada. Venha comigo, vamos dar mais uma olhada no quarto, talvez seja algum pequeno animal escondido.

O rangido lento estalado da porta do quarto de Karim parecia prenunciar algo bem pior que um roedor escondido. E aquele boneco feio, já não estava aonde devia. Agora estava recostado na cabeceira da cama e parecia quase humano. O seu único olho solitário parecia querer saltar da sua órbita, e tinha um brilho febril. Em contrapartida, seu outro olho era uma cavidade profunda e negra.

Fiquei todo arrepiado! Olhando aquele boneco de 60 centímetros. Ele vestia um macacão vermelho desbotado e uma camiseta encardida de cor branca com faixas horizontais pretas.

Meu Deus, nosso senhor... —, ouvi mamãe sussurrar. — Ele parece estar rindo do nosso pavor!

Não sei até hoje, se aquele sorriso foi uma peça pregada pela nossa imaginação assustada? Ou o resultado da grotesca maquiagem realizada por minha irmã no boneco.

A sua face horrenda, alem de distorcida pela chama do lampião, possuía inúmeras pintas coloridas nas bochechas redondas. Que aliais, eu vira a minha irmã pintando naquela mesma manhã.

Os cantos de sua boca vermelha, haviam sido pintados de verde. E pareciam repuxados para cima, simulando aquele grotesco sorriso. E como se não bastasse, os poucos tufos de cabelo cor de ferrugem, ainda presentes naquela cabeça infantil, em nada ajudavam e sim, reforçava o pavor repentino que invadia nossas mentes e corpos.

Para a minha surpresa, mamãe adentrou o quarto rezando com sua bíblia. A sua voz era melodiosa, quase hipnótica. E o lugar pareceu aquietar-se com a prece.

Percebendo a minha incredulidade. Ela falou baixinho para mim.

A palavra de Deus, Josy, tem um poder para além deste mundo. — "Josy... este era o apelido carinhoso como ela me chamava."

Algum tempo depois, nos retiramos do aposento. Parecia que tudo voltara ao normal. Mas minha mãe continuou com as suas preces, enquanto caminhamos para a sala. No corredor, encontramos a vovó. E ela, após saber os últimos acontecimentos, parecia contrariada.

Eu lhe avisei filha, tinha mesmo um estranho na casa. Eu só não esperava algo assim. Posso ver o quarto? talvez consiga ajudar.

Dentro do quarto e sobre a cama, o boneco fazia movimentos espasmódicos, como se ainda não dominasse a anatomia daquele pequeno corpo.

A tensão no interior do cômodo era quase insuportável, ao menor ruído eu me assustava. E quase saí em debandada, quando o corpo do boneco pareceu despertar.

A minha mão desprendia uma umidade fria e o coração batia forte e rápido, embora não aquecesse o meu corpo. O som da prece de vovó era um rumor profundo e monótono. Que logo foi interrompido.

De repente, o quarto ficou subitamente encharcado com uma intensa luz branco–azulada. Até os objetos inanimados pareceram adquirir vida. E a pesada janela abriu-se com um forte e seco estalo. Pude sentir um frio gelado escorrendo ao longo da minha espinha, e minha nuca ficou toda arrepiada.

O frio noturno, estranhamente, não penetrou no ambiente. Na verdade o quarto até ficou mais quente. E através da janela algo impossível aconteceu. Não é possível enxergar a silhueta das arvores, e o céu é completamente negro e sem estrelas. Olhar através dela é despencar num abismo sem luz, um portal para o nada absoluto.

Por favor, saiam da minha frente! — E a minha corajosa Vovó avançou através daquele mar de luz. Retira de seu pescoço fino um pesado relicário, e deste, um minúsculo frasco contendo um liquido translúcido. Enquanto isso, caminha a passos seguros e decididos em direção a aberração, enquanto reza e derrama água benta no ambiente. E, lentamente, bem lentamente, a calma retorna ao quarto de Karim.

Foi quando mamãe exclamou. — Josué, esteja atento para ajudar a sua avó. Ela está a cada passo se deslocando com mais dificuldade, parece que atravessa algo viscoso.

Tento me aproximar para ajudar, mas não consigo me mover. A força física parece não adiantar neste lugar. Apenas a fé inabalável da minha avó parece abrir um caminho. Reconheço agora, o esforço quase sobre humano de vovó enquanto ela desafia este ambiente sobrenatural.

Como se a cada passo as suas forças fossem sendo drenadas, ela foi lentamente reduzindo o seu avanço e subitamente perdeu os sentidos. Caindo com toda força no piso de madeira.

Oh, meu Deus, mamãe! Eu não deveria ter permitido... Vou chamar agora mesmo o seu pai, Josy. Fique aqui por favor.

E eu fiquei ali plantado, no limite da porta. E tudo parecia bem calmo e tranquilo. Teria vovó conseguido vencer aquele fenômeno?

Mal tinha pensado no assunto e...

Subitamente, como se uma gigantesca represa rompesse, o quarto voltou a ficar totalmente inundado por aquela luz e sua estranha energia que fazia crepitar o ar. Desta vez até os meus cabelos ficaram de pé. Era como se para recuperar o tempo perdido com a minha avó.

Agora no centro da janela, imagens abstratas coloridas vão e vem. Nas bordas do vão da janela, como formando uma moldura, a cor é de um vermelho escuro. E as imagens projetadas no seu centro são semelhantes a projeção de um filme antigo com defeito, e em alta rotação.

Percebo então uma pesada mão pousada no meu ombro e ela me transmite conforto e segurança. Era o meu pai, e ele também pareceu ficar paralisado diante daquela cena inusitada.

Enquanto isso, o boneco movimentava os seus membros e contorcia a sua boca de plástico. Como tentando pronunciar palavras, mas só o que escutávamos era o rangido do plástico sendo torcido.

Foram apenas alguns minutos, mas que para mim, pareceram uma eternidade. Mas, foi o quanto durou o nosso estarrecimento. Meu papai foi o primeiro a se recuperar do susto, e resolveu, com passos ainda que relutantes, aproximar-se daquela entidade incorporada. E parecia que a observava fascinado e sem nenhum medo.

Josy..., eu não compreendo! Ele parece estar chorando!

E aproxima-se ainda mais, tentando tocar em suas lágrimas.

Não existem de verdade, filho. São apenas uma ilusão, afirma surpreso.

Como se apercebesse tocado. O boneco aquietou-se.

Então no centro do quarto, uma diáfana neblina luminosa começou a adensar-se. Aos poucos foi adquirindo um contorno humano e em seguida estendeu as suas pseudomãos para o meu pai. Ela com gestos suaves parece implorar que ele a acompanhe.

Isso mesmo, foi o que entenderam, era uma mulher aquela forma de energia. Eu percebia claramente o seu cabelo longo e movimentado por uma brisa. Ela tinha uma cintura delicada e uma altura mediana.

Parecendo em transe, o meu pai a seguiu através do quarto em direção a janela. Mas antes de alcançá-la, ele cai por terra. Neste instante, superando todo o meu pavor, eu tento socorrê-lo. Mas novamente, não consigo sair do lugar.

Apenas observo, sem nada poder fazer por ele ou minha avó.

Percebo uma tênue névoa luminosa envolver o seu corpo desfalecido e adensar-se na medida em que dele se afasta. Então, estes dois corpos luminosos levitam através do quarto em direção a janela. A janela parece agora menos ameaçadora. É apenas um fundo negro envolto nas bordas por uma leve luminosidade vermelha escura.

Após as duas silhuetas brumosas sumirem nesta escuridão, eu senti no peito uma grande paz e um aroma de flores invadiu o aposento.

Quando percebi que a limitação de meus movimentos havia desaparecido, eu e minha mãe entramos no quarto e socorremos a minha avó. Que em poucos minutos, desperta de seu desmaio.

Já a preocupação com o meu pai não termina. O seu aparente sono é algo bem mais profundo. Mas como os seus sinais vitais estão normais, resolvemos esperar um pouco.

Transferimos com a ajuda de vovô, o meu pai para a cama da minha irmã, e fomos todos para a sala de jantar. Mesmo ainda nervosos e preocupados, tomamos algumas decisões.

Devido principalmente aos conselhos da minha avó, que parecia ter uma aptidão especial para aqueles mistérios, decidimos não abandonar a casa até o sol nascer. E rezamos para que nada de mal acontecesse com papai.

Eu não parava de olhar o relógio da sala; já passava das duas da madrugada e até agora nada.

Vovó ao relembrar o que lhe contamos, parece acreditar que a segunda névoa, aquela sobre o meu pai, talvez fosse a materialização da sua alma.

Eu não presenciei o que aconteceu – falou meu avô –, mas se for verdade? Que viagem fantástica estará ele fazendo agora, e que perguntas misteriosas não saberá responder quando retornar?

Será que terei o meu pai de volta?

Percebo que estou soluçando e mamãe envolveu-me num abraço afetuoso, embora com lágrimas em seus olhos.

Estávamos todos reunidos na sala quando sentimos a sua presença. Corremos todos até o quarto de Karim, e lá encontramos o espectro de uma mulher no meio do cômodo.

O seu contorno agora era extremamente nítido, dava até para observar os seus dedos individualmente e as mechas de seu longo cabelo. Tanto a parte de seu corpo visível, quanto aquela encoberta por sua túnica esvoaçante, são da mesma substância e de uma brancura extrema.

Com renovado espanto, eu tomo consciência de que é um espírito feminino, aparentemente jovem e delicado. O seu rosto, com exceção dos olhos, parece permanecer em constante movimento.

Com o meu pai despertando, eu desviei minha atenção da entidade e observo com ansiedade ele recobrar a consciência. Quando finalmente está em pé, ele nos olha por alguns segundos e caminha sorrindo em nossa direção. Sai do quarto, ainda com aquele leve sorriso estampado na face, e vai até a despensa. E retorna ao quarto em seguida, trazendo o seu material de pintura. E após depositar todo o seu material sobre a cama, ele sorri e acena delicadamente para a jovem entidade.

Jamais vou esquecer as cenas seguintes. Ele tranquilamente sentado na borda da cama, e o fantasma flutuando em sua direção. Em seguida, ela ajoelha-se de frente para papai, como em prece, permanecendo de costas para nós.

Papai começa a distribuir sobre o rosto do fantasma, uma fina camada da massa branca que ele costuma usar para cobrir as telas antes de pintar. E a seguir, começa a pintar o seu rosto.

As horas vão passando lentamente, mas após certo tempo perdemos a noção das horas. Saímos por pouco tempo e voltamos para observar aquela misteriosa cena. Os dois parecem não se incomodar com o movimento e papai parece totalmente absorvido pelo estranho trabalho.

Já se passaram três horas desde que ele iniciou a sua pintura sobrenatural. E novamente de volta ao quarto, eu percebo que ele guarda o seu material de pintura. Chamo a todos, e retorno correndo.

Meu pai agora esta de pé, e sorri para nós. Ao seu lado, uma bela jovem parece brilhar por dentro e nos sorri da forma mais linda e sincera que já vi. E o seu rosto, antes uma massa sem forma e em eterno movimento, agora é algo de rara beleza. Os tons das cores de sua face parecem perfeitos e naturais. Ele é muito expressivo e belo, na realidade é o que existe de mais humano naquele corpo de fantasma.

Após alguns minutos de uma imobilidade angustiante, sem ninguém saber exatamente o que fazer. Ela volta-se para a penteadeira e senta-se diante do seu espelho e parece ficar embevecida com a imagem refletida.

Enquanto isto, papai com uma estranha entonação na voz, nos contou o porquê, deste incrível acontecimento...1

 O Livre-pensador (Josué)

1 Continua na sexta e última parte d´O Contador de Histórias no IG 24, em Janeiro de 2017!

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