O Contador de Histórias - A Cabana

Trazemos a sequência do conto do integrante Antônio João Ângelo, O Livre-pensador (Josué). A segunda parte d´O Contador de Histórias.

A Cabana

 

IMG 7693Tio Josué passou a conduzir uma conversa alegre, após nos acomodar em poltronas rústicas e confortáveis. Enquanto minha tia brincava com a Mona no colo.

Os seus filhos Rubem, podem brincar com o Amigo depois que lancharem. Nosso velho cão é de total confiança.

Eu e Mona logo nos encantamos com o grande labrador acinzentado, com olhos cor de mel. Ele estava sempre aos pés de nossa tia.

Ely, olhe só o tamanho daquela torta de morango! Cochichava minha irmã, enquanto puxava a perna de minha de minha calça, e não desgrudava os olhos da maravilhosa torta. A cor branquinha do chantilly contrastava maravilhosamente com os maiores e mais vermelhos morangos que já tinha visto na minha vida. E me recordaram dolorosamente que, a não ser pelos biscoitos, não comia nada desde cedo naquela manhã.

A conversa foi longa, e pelo passar das horas, interessante e alegre. Após conhecermos a casa e nos acomodarmos, o jantar foi servido com todos participando. Em seguida, eu e minha irmã, praticamente desmaiamos de cansaço junto ao grande cão, chamado apropriadamente de amigo, num macio tapete de lã de ovelha próximo à lareira. Uma sonolência gostosa de barriga cheia nos dominou, embalada pelo crepitar da lareira, e algum tempo depois fomos despertos por papai, e carregados até nossos quartos.

Na manhã seguinte bem cedo, o canto dos galos, e os golpes secos e fortes de um machado, me despertaram para a primeira de uma série de manhãs frias e úmidas no campo.

Com agilidade incomum, me aprontei e fui ajudar Josué, o lenhador-despertador. Seguindo suas instruções, depositei a lenha num carrinho de madeira e levei-a até o estábulo atrás de sua casa. Lá, confortavelmente acomodados, encontrei um garanhão de cor negra, com sua companheira castanho dourada, e um potro marrom. Este, desconfiado com a minha presença, grudou em sua Mãe e não parava de me olhar, com seus grandes olhos cor de chocolate, encimados por longos cílios. Neste mesmo ambiente, vive uma mula com ares de teimosa, e três bovinos da raça jercey, um boi, uma vaca e um bezerro. Segundo Josué, a raça destes compactos bovinos é ideal para pequenos espaços.

O cheiro característico da palha, da madeira úmida, do conteúdo dos cochos, e principalmente dos animais neste ambiente fechado, me emocionaram quase as lágrimas. O ambiente quente e úmido, devido ao calor de seus corpos e sua respiração vaporosa, me emocionam de forma pungente. Até aprendi, com velocidade estonteante para um garoto da cidade, a ordenhar Mila, a vaquinha.

O dia está frio, mas parece não incomodar Josué. O prazer com que executa suas atividades cotidianas é contagiante. Transparece a disciplina de um soldado em manobra militar, sem a rigidez de um mero cumpridor de ordens. Carreguei leite, lenha, e fui apanhar ovos no galinheiro. Mas só pensava no café da manhã. O aroma que vinha da cozinha era o de café recém-moído e leite recém-fervido. A visão de doces, tortas, ovos, polentas e sucos, através da janela da cozinha, estavam me enlouquecendo.

Hei Ely! Olha o que a tia Marly me deu — Grita para mim Monike. Olho através da janela, e entendo sua alegria. É a panela onde foi preparado o bolo.

Mas que droga! Penso. Minha irmã está no quentinho e ainda fica com a raspa da panela, que é mais gostosa que o próprio bolo. Sem contar, o sorriso de felicidade em sua cara sardenta. Ela esta sentada num canto da cozinha, com somente o Amigo para dividir a raspa do tacho.

Após o café da manhã, tio Josué nos chama.

Venham! Vamos até os cavalos, vou ajudá-los a encilhar os animais e lhes ensinar alguns detalhes para manobrá-los. Vamos indo!

Eu, claro, acabei montando a mula chamada Mel.

Partimos com o sol disputando sua primazia, com a fria manhã. O orvalho ainda teimava em cobrir a vegetação, e as flores ainda sentiam o frio da recente madrugada e aguardavam ansiosas o calor e o brilho do sol, para nos premiar com sua beleza e aroma.

Comigo encerrando a fila, seguimos por uma trilha que existe atrás da casa e seus anexos. Em um caminho descendente, percorremos uma ravina estreita e íngreme, com rochas ladeando o caminho e o barulho de correnteza reverberando a nossa volta.

Este é o som do sangradouro do lago negro, que passa por traz da casa e deságua no sopé da montanha, num rio — Falou Josué.

Nossa primeira parada foi numa araucária gigantesca. Talvez a mais velha de toda a montanha. Três homens, seguramente, não conseguiriam abraçá-la. De seu poderoso corpo, pendiam barbas de velho em profusão, e recobrindo o corpo deste gigante, uma miríade de formas coloridas: liquens, limo, inúmeras bromélias e algumas orquídeas floridas.

O que vocês acham, não é uma beleza?

A princípio, pensei que Josué falasse sobre a árvore gigante. Mas para minha surpresa, não era bem isso.

Não estão vendo? Exortava ele — As aves ali! Bem ao lado daqueles galhos secos. São os pequenos papagaios das araucárias, são raros!

Só agora, eu conseguia ver a pequena ave esverdeada, na verdade era um casal lá no alto.

Em seguida, cavalgamos em volta do lago negro, onde observamos algumas aves aquáticas: marrecos, mergulhões, garças brancas e até um cinzento e bicudo socó. Galopamos então por alguns quilômetros, até o sopé da montanha do lago negro, lar da família Moreno. E encontramos o pequeno igarapé que vinha do lago negro. Que deságua aqui, num pequeno e caudaloso rio. Na margem oposta, um barulhento bando de periquitos verdes, com um colar de delicadas penas azuis e a cabeça preta, alçava voo.

Segundo meu tio, este rio estreito e rápido é o imponente Rio Negro. Aqui a quase mil e oitocentos metros acima do nível do mar, e próximo a sua nascente, ele é apenas um pequeno rebelde. Outro dia, nos garantiu, iríamos conhecer a sua nascente, pois ela fica em suas terras.

No fim do passeio, fomos até um mirante natural na borda do cânion do Itaimbezinho. O cânion brasileiro. À nossa frente, a talvez algumas centenas de metros, ergue-se uma muralha gigantesca de pedra negra - acinzentada. Aqui, estas formações basálticas de origem vulcânica, são denominadas taipas, segundo meu tio.

No entanto, foi uma curiosa formação natural, que atraiu minha atenção: Uma pedra em arco gigantesca, no topo da escarpada parede do outro lado. Tio Josué percebendo meu assombro, explicou a sua origem como resultante da ação contínua, por milhares de anos, da água, do vento e de uma boa dose de sorte, e me informou como é conhecida. “É a pedra furada, um dos lugares mais frios do Brasil, e um bom lugar para pensar". Bom, confesso que não entendi muito bem esta última afirmação.

Uma imagem de tirar o fôlego: o fundo do desfiladeiro está a centenas de metros, escondido por espessa neblina em eterno movimento, e parece existir um rio lá no fundo. O vento é gelado e carrega muita umidade, nosso cabelo e rosto estão encharcados, sem falar naquele silêncio inexplicável. Então algo estranho surgiu em minha mente, um pensamento pleno de verdade: “Esta é uma forma bem prática e saudável de sentir-se pequeno e humilde perante a natureza!". Quando dei por mim, dois pares de olhos curiosos me fitavam com surpresa. Sem saber como reagir a tanta curiosidade, e imaginando não ter apenas pensado, fui perambular nas imediações a procura de rochas para a minha coleção.

Na volta, meu tio contou-nos um pouco sobre o passado da nossa família. Ficamos sabendo, meu pai e eu, que nossos antepassados foram antigos colonizadores do Brasil. Segundo suas informações, nossos antepassados remontam ao período em que Portugal e Espanha dividiram o mundo entre si, com o aval do Papa daquela época. Este acordo absurdo denominou-se tratado de Tordesilhas. A fronteira dos dois impérios passava por onde é hoje o Estado de Santa Catarina.

Em 1777, a Espanha ocupou a ilha de Desterro, atual Florianópolis. Pois naquela época a fronteira ainda não estava bem definida entre Espanha e Portugal. Com os Espanhóis, desembarcou nosso ancestral comum, um mercenário de muitas guerras, chamado Luiz Basques Ortiz Moreno. Que encantou-se com a terra, e aqui ficou após a saída dos espanhóis.

Foi então contratado pelo governador da província para treinar as suas tropas. E encerrou a sua brilhante carreira militar, como major do exército Português, e um brasileiro de lealdade incontestável. Foi agraciado com grandes extensões de terras por seus inestimáveis serviços à Corte portuguesa, e um incomum título nobiliárquico de Comendador.

A maior parte de suas terras, perdeu-se com o tempo. Mesmo assim, quis o destino que seus descendentes preservassem parte destas terras, até os dias de hoje. E o meu tio Josué é o seu herdeiro.

Ainda curioso com as estranhas roupas de minha tia Marly. Fiz algumas perguntas, enquanto cavalgava ao seu lado. E ele matou a minha curiosidade.

A família de Marly, meu jovem, tem sua origem na Letônia, um país Europeu. Para este povo, pregar o evangelho é muito importante. Foi com a nobre missão de disseminar sua fé, que seus antepassados vieram ao Brasil. Eles amam a natureza como poucos, e expressam isto até em seus próprios nomes, incorporando nomes de espécies animais e vegetais.

O nome da minha esposa é Marly Margarida Lotti Moreno. É um povo cheio de sabedoria. Suas casas, roupas e utensílios, são normalmente fabricados por eles. Nossa casa, por exemplo, foi presente desta comunidade, um presente de casamento. Embora desposá-la seja o meu presente favorito.

Uma risada rouca e um sorriso espontâneo trespassaram os finos lábios de meu Tio. E iluminou seu rosto curtido e rasgado pelo sol.

O Livre-pensador (Josué)

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