O Contador de Histórias - A Varanda

Trazemos a sequência do conto do integrante Antônio João Ângelo, O Livre-pensador (Josué). A terceira parte d´O Contador de Histórias.

A Varanda

 

IMG 7369Estamos em junho de 1978 e minha família está novamente reunida. São treze membros; três filhos: Leto o primogênito, com sua esposa Karla e seu filho Fábio; a Sophie com o marido Jorge e seus filhos: José, João e Karla; e a minha caçula Karim, com o marido Ted e a minha netinha Luiza, com apenas seis meses. Hoje a noite temos alguns convidados e parentes: o Rubem com a sua esposa Ivete, e seus dois filhos. Eles já estão conosco há alguns dias. O mais velho, o pequeno Eleazar, despertou-me um carinho todo especial. Ele é esperto e curioso. Vou observá-lo com atenção esta noite.

O jantar foi alegre e cheio de peraltices dos netos. Tenho o costume de permitir que os pequenos jantem sobre a mesa, comendo tudo em que possam pôr as mãos. Isso cria as mais divertidas situações. E a vida fica por algumas horas sem ordem costumeira, e por isso, intensa e saborosa.

Leto é sempre o mais a vontade com aquela situação inusitada. Ele descobriu um jeito simples de lidar com a situação. Simplesmente coloca mais comida no prato, e permite que elas comam uma parte. Certamente por este motivo é o único que não tem algum resto de comida no cabelo.

As mães surpresas, nunca entendiam o porquê dos pequenos, nestas ocasiões, comerem de tudo. Até brigavam pela salada de verdura. Sem dúvida, o tempero da liberdade é gostoso. Quanto a mim, abria um enorme sorriso, e esquecia até da comida.

Em seguida ao jantar, apanho o meu cachimbo no quarto, atravesso a sala e saio de casa para a noite fria e enluarada. Sempre na companhia do meu generoso e fiel amigo. Um amigo que teima em me guardar, mesmo quando o frio já lhe é um incômodo. Caminho a passos lentos na grama úmida, na margem de nosso plácido lago, enquanto monto meu cachimbo. Meu amigo de quatro patas segue lento ao meu lado. Após um tempo, e já sentindo frio, retorno à varanda com o meu cachimbo fumegante.

Sentado em minha cadeira predileta na varanda, os pensamentos vem e vão ao ritmo do balanço. O sussurro das vozes no interior da cabana, me toca de leve a consciência. Meus sentidos estão voltados à brisa do anoitecer e ao roçar das folhas e galhos da floresta que me rodeia.

É neste pedaço de paraíso que vivo com Marly há quase 40 anos. Aqui, tenho poucas obrigações. A principal é preservar as terras por mim herdadas. Recordo com satisfação a ideia de Marly. Arrendar nossas terras por valores simbólicos, a comunidades que desejem qualidade de vida. E em troca, eles devem proteger a natureza. Não que a ideia me fosse estranha, pois há gerações a minha família escolhe com esses objetivos os seus habitantes.

A variedade étnica destes protetores, como os denomino, é impressionante. Temos índios de várias etnias, como Xokleng e Kaingang; descendentes de letões, alemães, húngaros, italianos, afro-americanos, poloneses, e muitos brasileiros. Somos aproximadamente cinquenta mil almas vivendo em paz há gerações.

No vai e vem de minha espreguiçadeira, sinto o tempo fluir. Mais um dia se vai, é triste, mas foi belo e único. Uma rotina que se estende há 72 anos. Então, penso...

"O tempo é infinito e racional, não pode ser eliminado de qualquer consideração do viver. Apenas se transforma a cada experiência vivida – ele é relativo. Compara-se a um jovem rio cheio de curvas e corredeiras a descer montanhas através de estreitos e íngremes penhascos. Mas, também é o mesmo rio que repousa sereno em plácidos vales. Refletindo como um espelho a natureza ao seu redor".

"A depender da mansidão ou agitação da vida de cada um. O tempo será percebido de uma forma distinta, e a nossa pequena eternidade vai passar rápido ou bem lentamente. Em nosso dia a dia, durante os momentos de perigo, azar ou monotonia; o tempo custa a fluir, o momento congela. Já quando a beleza é intensa e agradável o percurso; em que as manobras para alcançar um objetivo são satisfeitas, o tempo torna-se indomável e passa rápido como um raio. Podemos apenas de um ponto fixo, que é estar vivo, observá-lo em seus bons e maus momentos. Vivendo cada segundo como se fosse o último, e usando toda a nossa inteligência para abreviar os maus momentos da vida".

"Viver é como navegar num poderoso rio de tempo finito. Numa frágil embarcação de juncos – o nosso corpo. No fim dos dias, o nosso pequeno rio não mais faz espuma, inexistem maus ou bons momentos. Você navega manso em sua doce correnteza, e finalmente deságua num gigantesco e infinito oceano de águas límpidas e tranquilas. É neste ambiente atemporal e único, que todos os objetivos alcançados, e aqueles que não o foram – estarão em você. A espera de serem relembrados, e juizados com o novo renascer – Bem, não é uma certeza absoluta, mas pelo menos é um consolo acreditar nisso. Já estou velho e a tranquilidade deste pensar me atrai, como a água atrai a vida".

Vovô, me bota no colo!?

Arrancado de minhas reflexões, percebo em meio na penumbra, uma pequena silhueta. Ah, é Fabinho meu pequeno neto. Ele se aproxima de bracinhos estendidos, e logo salta em meu colo.

No interior da cabana, as vozes se entremeiam de risos e ruídos de cozinha. E uma brisa úmida cochicha em meus sentidos. E os sons e cheiros fazem a sua parte, antecipando os petiscos da noite: o característico cheiro da castanha do pinho, e os discretos estalos da sua casca no fogo, antecipam a presença de pinhão frito. Enquanto o cheiro adocicado com tons de baunilha, resulta de uma tarde inteira de culinária infantil. São biscoitos crocantes, criados a partir da mistura da farinha de trigo, sal, gema de ovo, baunilha e chocolate. Em seguida, a massa desta mistura é modelada com a imaginação infantil e suas pequenas mãos. Surgem como do nada as figuras mais inusitadas. São soldados que não parecem soldados, casas que não são casas e flores com cara de espinhos. E vez por outra, um papai e mamãe também vão para o forno, e termina levando uma dentada de seu querido filho. Num humor infantil um tanto macabro.

Agora, neste preciso instante, sei que o forno foi aberto. A minha boca se enche de água e a atmosfera fica densa com tanto o sabor.

O meu neto não suporta o silêncio e vai ficando inquieto. Conversamos sobre os mais variados assuntos e que parecem não ter um fim. Pois o eterno “porquê” de meu Fabinho é um desafio insuperável.

A noite desaba, e uma mortalha branca e semitransparente envolve a casa, o lago, e finalmente toda a montanha. O vento frio e úmido envolve nossos corpos, e é preciso agasalhar-se. Estamos agora, dentro ou fora de casa, envoltos em grossos agasalhos de lã. E meu neto se distrai com os pequenos e delicados anéis de fumaça que crio em pleno ar, com o meu velho cachimbo.

Agora sou eu que, incomodado com o nosso silêncio, pergunto ao Fabinho: Se ele sabe o que são todos aqueles pontos brilhantes no céu. Sua resposta é encantadora.

Vovô, eu já vi um lugar igual ao céu! Foi enquanto o avião pousava a noite na cidade, e eu olhava da sua janela. Eu acho..., que essa aí é a cidade do céu!

Não me contenho, e dou uma gostosa gargalhada.

Ouço passos e volto-me. Percebo sombras avançando à luz bruxuleante do lampião. Todos vão chegando, e se aconchegando na ampla varanda. Alguns estão aconchegados no chão, agora coberto com tapetes de lãs felpudos. Minha família e convidados, finalmente, estão agora reunidos.

Estou curioso para conhecer as reações dos meus convidados a minha fantasia. Através dos anos, durante as férias, todos vem a montanha do velho, como carinhosamente chamam este lugar. E sinto que não é somente para nos visitar, mas para aprender. Acho que não percebem, mas os espero ansiosamente todos os anos.

Minha querida Marly já sentou em seu lugar predileto no vão da porta. A claridade que vem da lareira na sala forma um halo de luz dourada e trêmula, que produz reflexos avermelhados em seus longos cabelos lisos e da cor de cobre velho. Ela parece adormecida, mas sei que tudo observa. A beleza é atemporal nesta bela dama. Sou um homem feliz e de muita sorte.

Encontramo-nos aqui, todas as noites, após o jantar. As conversas se sucedem de forma espontânea e varamos noite adentro, entre petiscos, fofocas, piadas e assuntos familiares. A cor e o calor do fogo, o aroma e o sabor da comida, são o tempero da comunhão humana há milênios.

Com o passar das horas, os mais jovens vão adormecendo e sendo levados aos seus leitos pelos pais. Ficamos por fim em número de oito. Todos com idade, maturidade ou curiosidade suficiente, para participar do episódio que sempre espero com indisfarçada ansiedade.

Papai, conte-nos uma história. — Pede Leto. Seu nome é uma homenagem aos letões, um povo maravilhoso, que me inspirou e me presenteou com Marly.

Reluto como sempre. E todos voltam-se para Marly, esperando que ela interceda.

Josh! — Diz ela. — Conte alguma coisa para distrair os nossa família. — O sorriso em seu rosto, confirma o seu prazer pela brincadeira que se repete há anos.

Bem, meus queridos. Vou lhes relatar algo verídico; aconteceu comigo em meus tempos de rapazote.

Ainda hoje, minha querida família, eu sinto arrepios ao relembrar aqueles acontecimentos, ocorridos por volta de 1921. Em uma das pequenas vilas alemãs de nossas terras.1

O Livre-pensador (Josué)

1 Continua na quarta parte d´O Contador de Histórias no IG 22, em Novembro de 2016!

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