O Contador de Histórias - Uma Jovem Colônia Americana

Trazemos o final do conto do integrante Antônio João Ângelo, O Livre-pensador (Josué). A sexta parte d´O Contador de Histórias. Esperamos que gostem e que esse extenso conto tenha incentivado a todos colaborarem com nosso informativo.

 

Uma Jovem Colônia Americana


 

Ele contou então a sua aventura. Foi um monólogo tenso para todos nós, mas ao que parecia era um pouco divertido para ele.

Tudo começou no ano de 1650, quando a ainda jovem colônia inglesa dava os seus primeiros passos na América do Norte. E muitos foram os colonos que ali aportaram para iniciar uma nova vida, naquela terra inexplorada.

Foi nesta jovem América que uma família cheia de energia e esperança se estabeleceu. No lugar onde hoje é o estado da Filadélfia.

Era uma família típica de pioneiros: jovens, fortes e felizes com o sonho de um futuro melhor. Tinham uma única filha, uma garota igual a tantas outras, mas com algumas peculiaridades: ser muito bonita, mas parecia pouco afeita aos serviços domésticos. Não que fosse preguiçosa, mas para uma simples camponesa todos achavam estranho que ela dedicasse tanto tempo embelezando-se com tanto esmero.

Como não possuíam espelhos de boa qualidade, não era difícil encontrar a jovem Mory durante horas sentada na margem de plácidos lagos. Ela parecia embevecida, hipnotizada, com a sua imagem refletida pelas águas.

Poderíamos defini-la como uma narcisista, que é uma pessoa obcecada com a sua própria imagem.

Quando ela tinha cerca de vinte anos aproximadamente, aconteceu a tragédia que iria mudar para sempre a vida desta jovem.

O costume de manterem um lampião aceso durante toda a noite provocou o incêndio de sua pequena casa e mutilou o rosto da jovem Mory terrivelmente. A partir daquela data, Mory perdeu a vontade de viver. Apenas a recordação do seu belo rosto a consolava. Com o passar dos anos a sua autoimagem mental foi perdendo nitidez, e a tristeza virou sua companheira por toda vida. E como iria perceber, para além dela.

Em alguns momentos especiais, a sua angústia era indescritível. Por fatalidade ou não, foi num destes estados de profunda tristeza que ela morreu. Tinha apenas quarenta e sete anos.

Mas a sua obsessão pelo belo a escravizou e não permitiu a liberdade da sua alma.

Por uma pequena eternidade ela ficou a vagar, procurando ajuda para sua tristeza infinita. Jamais encontrou a sua merecida paz. Desejava com todas as suas forças, resgatar a sua lembrança de beleza.

Foi com este objetivo que Mory veio até nós. Precisava de ajuda, e eu como por acaso topei com uma solução. Ela percebendo a sua chance e me enviou através da sua triste memória.

Viajei através das suas fragmentadas e nebulosas lembranças. Vivi e senti seus bons e maus momentos. E um certo dia vislumbrei a sua jovem e bela face, refletida nas águas de um rio. Retornei de seu passado e com a imagem gravada em minha mente eu lhe pintei o rosto.

Mory finalmente após séculos de angústia vai poder seguir em frente, afastar-se da nossa realidade. Agora ela carrega consigo algo para adorar, a sua querida imagem a muito esquecida.

No entanto, a partir de agora e depois de tanto sofrimento, reconhece que aos poucos terá de libertar-se desta adoração, mas até lá terá paz. Um dia compreendera o quão pouco deve ser supervalorizado qualquer bem material, incluindo aí o próprio corpo. Deverá sim, reger as suas ações pelo bem comum, e amar em espírito a todos os seres vivos como parte de Deus. Sem levar em conta a sua forma, cor ou espécie.

Passados alguns segundos de imobilidade e mutismo, o meu pai perde novamente a consciência. Enquanto isto, Mory nos observava sorrindo e ficando transparente. Por fim, desaparece diante de todos nós.

Por um instante a máscara paira no ar, depois, subitamente despenca em direção ao solo e fragmenta-se em milhares de pedaços. O súbito barulho nos faz despertar deste aparente sonho, e logo em seguida papai recobra a consciência.

Minha mãe vai até ele, e procura saber mais detalhes. Mas sem aparente resultado.

O que está acontecendo Rosa, eu só me recordo de chegar bem perto do fantasma e nada mais. Aconteceu mais alguma coisa? – Pergunta papai.

Mamãe nos faz um sinal, e não voltamos a tocar no assunto.

Durante a tarde, neste mesmo dia, ele começou a pintar um novo quadro. Uma pintura que guardo com carinho até os dias de hoje. Nesta tela, uma rústica janela aberta com um fundo negro e bordas cor de sangue, tem no centro uma figura branca e esvoaçante a nos acenar.

Quando perguntamos assustados, o significado daquela imagem, ele não soube o que dizer, e ficou intrigado. E jamais voltamos a comentar este assunto com ele.


 

***


 

Em meio ao silêncio da noite fria, a minha Marly intervém.

Bem meus filhos, terminou por hoje. Josh querido, vamos dormir.

Quanto a minha família, eu desconfio de que vão precisar de mais algumas horas para pegar no sono.

Observo com um certo ar de satisfação que, em vez de se levantarem, todos estão com o olhar fixo através da janela que dá para o interior da sala de estar. Mais precisamente, em um ponto logo acima da lareira. Eles observam, estarrecidos e um tanto assustados, o quadro pintado por meu pai há tantos anos.

Então eu apago o meu cachimbo, bato com ele numa pilastra da varanda para limpá-lo e levanto, sentindo as costas doloridas. Dou um suave beijo nas faces da minha vida e vamos dormir com um sorriso nos lábios.

E penso, com uma certa culpa, hoje eu vou desculpá-los por irem dormir sem me pedirem a bênção.


 

FIM

 O Livre-pensador (Josué)

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